O dia em que quase perdi minha cabeça
Não há muito tempo, quando criança. Aproveitando tudo o que tinha de agradável na invasão. Não sabendo identificar se eu chamaria de quadra sendo que não tinham quadras. Haviam ruas e nomes engraçados, a minha mesmo se chamava Rua Alta Tensão, barraco nº 2116, Paranoá. Por ter uma rede de alta tensão que cortava a invasão ao meio.
Pois bem. As ruas em que eu andava e aproveitava todo o espaço para brincar e crescer. Tinham e até hoje quando eu passo por perto e me situo geograficamente. Trazem um ar de alegria. Fazem-me lembrar das brincadeiras, as brigas comuns de criança, dos palavrões que acarretavam puxões de orelha, quando não era pior.
Mas sempre que a saudade bate no tino, traz consigo um dia muito engraçado. Brincávamos correndo feitos loucos, tipo polícia e ladrão. Chamávamos de “salve-cadeia”. Um grupo depois do sorteio seria a polícia e outro os ladrões. Os ladrões deveriam correr, mas obedecendo ao critério de ruas que não deveriam passar, pois já se considerava automaticamente presos.
Pois bem, a noite ainda era uma criança e nós lá correndo e sentindo liberdade por sermos criados num lugar, onde nossos pais, apesar de saberem que não era um bom lugar para nos criar. Ainda tinham segurança em deixar um monte de criança nas ruas, descobrindo tudo o que a Vila tinha para oferecer.
Eu corria feito um louco; fugindo, gritando, brigando por não aceitar umas prisões. Coisas do tipo:
_ Você ta preso!
_ Não to.
_ Ta sim, eu lhe peguei.
_ Mentira, você nem me segurou!
Seriamos presos sempre que nos pegassem e dessem três tapas nas costas. Algumas vezes rolava briga feia por causa dos tapas. Alguns excessos, coisa de criança.
E lá ia eu, depois de uma fuga, com dribles de corpo que enchiam o ego de cada. Uma puxada para direita, outra para a esquerda e lá ia eu no fim da rua. Aparecia novamente para tentar livrar meus comparsas e novamente os dribles, fugas pelos barracos alheios, saltava arames farpados outras vezes tinha que me esgueirar entre eles. Gente brava por passarmos pelos lotes correndo e gritando por avacalhar quem não conseguia nos pegar. E isso sempre deixava alguns arranhões grandes. Chato era arranjar uma desculpa para a mãe. Pés nas havaianas seguras com grampo ou arame, para reforçar. Driblar três, quatro meninos fazia com que os outros sempre lhe chamassem para o time deles por ter agilidade na fuga.
Mas lá pelas nove horas. Estou falando essa hora por lembrar que era hora de novela das oito. E todo mundo estaria em casa nessa hora. Bem, continuando. Eu tinha acabado de livrar uns amigos e tínhamos tido a idéia de fugirmos passando pelo lote onde funcionava um centro espírita. Pois os arames de lá não eram farpados e sim lisos. Assim seria mais fácil se mandar. Nisso quando estávamos bem quietos para não chamar a atenção, um cara que cuidava do galpão nos viu e começou a gritar e isso chamou a atenção dos outros meninos que queriam nos pegar. Foi um foge para cada lado, eu me mandei por um canto em que eu teria que passar no lote da Dona Ambrozina...Eita nome, hehehehehehehehe.
Passei pelo arame, me adentrei no lote da mulher que era a fuxiqueira da rua num silêncio tamanho. Com medo de ela ouvir e ir olhar o que era .A mulher aumentava tudo. Eu já a imaginava dizendo que eu tava tentando roubar as bananas dela, contando para minha mãe e meu pai, isso girando entre os vizinhos, seria a morte para mim. E sobre as bananas serem pegas, coisa que eu já tinha feito muitas vezes com muita precisão, não seria agora que ela iria me ver.
Quando vi que poderia correr para a liberdade, justo nessa hora em que já me sentia livre de Dona Ambrozina e dos meninos. Aconteceu a merda. Eu comecei a correr o máximo que eu podia para fugir, ria sozinho por imaginar a cara dos meninos ao me verem livre ainda. Corri feito um louco e tive umas das piores sensações da vida. Justo quando estava perto de sair do lote, meti meu pescoço na corda de nylon do varal. Nossa, eu por estar correndo muito, tive um tranco enorme que me jogou para traz e assim para o chão. Isso fez um barulho muito grande, sentia muita dor, olhos já cheio de lágrimas. Mas isso eu não faria, já era grande, já iria para os meus oito anos e meio. Homem não chora, lembrava meu pai dizer. Mas me contive e sai do lote, cambaleando é claro, mas sai. Cheguei em casa e aquela marca enorme no pescoço e minha mãe louca querendo sabe onde e como eu tinha feito aquilo. Chantageava-me, dizendo que se eu não falasse para ela, ela iria contar ao meu pai, coisa que eu menos queria que acontecesse.
Para meu pai só foi contado muito tempo depois. E na rua todos sempre riam de mim quando viam minha marca no pescoço. Foi um dia muito animado, até acontecer tudo isso. E hoje vejo o quanto foi mais engraçado ainda, por rir de tudo que fazíamos e ainda tirávamos onda.
Quanto à marca, já não tem nada. Nada consta!